Carmen – Workshop de Canto e Dança

Olá a todos, sejam bem-vindos!

Um dos objetivos do blog da Acontece é produzir conteúdos relevantes à área cultural em formatos distintos. Nosso propósito é o de esclarecer, suscitar reflexão e convidar parceiros para utilizar o espaço e construir uma sociedade cultural mais consciente.

Desta vez, Ana Nogueira, gestora cultural e produtora Associada da Acontece Arte e Cultura bateu um papo com as idealizadoras do “Carmen”, Sheila Negro e Josy Martinez – La Cubanita.
E você, tem alguma curiosidade ou pergunta? Compartilhe, replique essa ideia e transforme-se!

1) Queridas! Contem-me: quem são Carmen, Sheila Negro e La Cubanita?

S/L – Nesse momento, sobre quem é Carmen só podemos dizer o seguinte: Uma mulher integra, forte, inspiradora, feliz e que ama profunda e verdadeiramente a si mesma… o resto vocês tem que vir descobrir conosco.

S – Sheila Negro, também conhecida como Sheila Minatti, é cantora, professora de canto, coach de voz artística, empreendedora e co-fundadora da Acontece Arte e Cultura. Sua formação musical foi construída sobre o repertório da música clássica porém a grande paixão por suas suas origens – a música popular brasileira -, a impulsionou a divulgar o repertório da canção: seja ela de origem popular ou erudita. O desejo por um mundo melhor a levou ao universo da Educação e sua atividade docente tem como premissa a busca pela identidade vocal, seja no trabalho com cantores profissionais ou leigos. Sua visão contemporânea sobre como a Arte pode melhorar o mundo se reflete nos projetos desenvolvidos pela Acontece Arte e Cultura, uma empresa que, definitivamente faz ‘acontecer’.

LC – La Cubanita (Josy Martinez) é Bailaora, Coreógrafa, Arte-Educadora e estudiosa das artes contemporâneas. Traduz em sua trajetória artística a diversidade e inquietação através dos roteiros de suas criações coreográficas e espetáculos. Fundadora e Diretora do Núcleo Faces de Arte Flamenca e diretora do Núcleo Flamenco Ballare em Santos. A unidade de Atibaia é a primeira escola oficial de Arte Flamenca da região bragantina. Já realizou em todo território nacional arte-instalações, espetáculos, tablaos, shows e workshops. Acredita que a arte é uma das ferramentas mais poderosas de comunicação, reflexão e transformação e nesse sentido dedica toda sua carreira.

2) De onde partiu o estímulo para o processo?

S – O estímulo para o processo surgiu do convite para fazer o encerramento do SiaParto 2018. Nosso desafio era produzir uma atividade artística para duas mil mulheres que estavam no terceiro e último dia de uma jornada de atualização científica voltada a humanização do parto. Nosso público era composto de mulheres vindas de todo o pais e com as mais diversas formações e me foi pedido que cantasse algo do universo da música clássica.

Escolhi a famosa ária “Habanera” da ópera Carmen (muito utilizada, inclusive em comerciais de televisão) pelo simbolismo que trazer essa mulher aos palcos de hoje, representa: Carmen era uma mulher forte, intuitiva, cigana, perseguida e foi assassinada (esfaqueada) por D. Jose, um oficial do exército, ao se negar a ser “dele” (qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é mera coincidência).

Carmen é clássica história de um feminicídio, da violência contra a mulher, mas também do empoderamento feminino. Tive então a ideia de chamar La Cubanita para bailar comigo e enriquecer a linguagem artística, por acreditar que o canto e dança se complementam. Durante nossos ensaios conversamos muito sobre o que as palavras da canção diziam e qual era, de fato, o sentimento por trás de quem falava que “o amor é um pássaro rebelde que não se pode aprisionar” e chegamos a conclusão de que Carmen é como nós, uma lutadora e que sofre com o contexto à sua volta, que vive a tolher a sua liberdade.
Enquanto o canto conta a história dessa mulher e a dança revela seus afetos…

3) O que se pretende após as 3 horas de workshop?

LC – Temos dois objetivos centrais:

1 – Utilizar a música como um “espelho” da alma humana. Mostrar as mulheres o quanto a arte oferece alternativas, exemplos e historias que nos ajudam a transformar a nossa realidade.  Conectar essa ponte entre o ancestral e o contemporâneo , trazendo por meio do canto e do movimento, experiências, sentimentos e emoções … uma forma de se curar, transformar e acordar. Um canal para desnudar-se a si e para si.

S-  2) Apresentar elementos fundamentais do canto e da dança e trazer ao corpo essas reflexões… expandir os movimentos … expandir as vozes (que cantam e que falam dentro de nós).

 

4) É um processo contínuo?

S- Sem dúvidas. Cada canção é uma história e permite ao ser humano se descobrir e revelar continuamente.

LC- É um processo criativo, e o processo criativo sempre é eterno e contínuo.

 

5) Como se empoderar? Se redescobrir no dia a dia?

S- Mudar é sempre um processo longo e desafiador. Se “empoderar” é uma mudança de atitude consigo mesma, mudança de valores, de relações – é, muitas vezes acreditar nas suas verdades e intuições. A arte desperta sentimentos internos, nos reconecta e ao vincularmos essas mudanças internas a um objeto, no nosso caso, uma canção, ela passa a ser como um “farol” uma pedrinha de lembrança de todo aquele processo de transformação.

LC – Eu gosto muito da palavra “resgate”, resgate da nossa voz feminina, do que somos enquanto ser humano e acolher as nossas fragilidades, que é também o que nos torna vital e isso, muitas vezes a gente não acessa. Nos deixamos levar pela vida a esquecemos de olhar para dentro. Temos muitas fases…  Se cada mulher tivesse a oportunidade de acessar suas infinitas faces estaria cada vez mais viva, mais potente, mais plena. E um resgate do que é essencialmente individual em cada feminino…

Significa também que quando as mulheres passam a se desligar um pouco do mundo tecnológico e rotineiro, buscam descobrir mais de si próprias, se interiorizando, percebendo melhor seus instintos, suas vontades . É um permitir que esse resgate de consciência as abrace.

Esse despertar para uma nova consciência pode ser interpretado como o abandono da supremacia patriarcal acordando um novo mundo, mais afetivo, artístico, menos racional e mais sensível.

 

6) É um processo colaborativo? Em que medida pode auxiliar na construção de alicerces de equipes?

S- O processo é fundamentalmente colaborativo. A troca de percepções: experiências e vivências são o elemento central de transformação. Ouvir, concordar, discordar e repensar faz com que “eu” me perceba como individuo e ter um objeto externo artístico que permeia essa discussão, nos coloca em contato com valores humanos e nos convida não só a refletir mas a convida a criar.

LC- A dança é um coletivo impressionante, vejo a cada aula, na formação das turmas a união que cresce entre as mulheres que passam por aqui, independente do nível técnico em que se encontram. Um grupo, imbuído do mesmo propósito e com estímulos individuais constantes se torna uma equipe imbatível, pois dentro de si, todas sabem para onde caminhar.